• Mariana Sierra

Como aproveitar a alta e a baixa de trabalho?

Ser autônomo ou ter uma empresa própria envolve muitas preocupações que um assalariado não tem no dia-a-dia, mas também gera pequenas satisfações que só quem apostou todas as fichas no próprio potencial pode ter.

Eu comecei a minha empresa, enquanto trabalhava em uma agência de publicidade e precisei fazer "terapia" para entender que ela realmente existia, além do meu trabalho fixo. A idéia de que existe uma segurança no emprego tradicional, faz com que fiquemos aflitos sobre o que significa depender apenas de si mesmo. A verdade, é que os administradores da empresa que você trabalha, também vão ter cortar pessoal de uma hora para outra se a entrada de dinheiro não for a esperada para o tamanho da equipe. A segurança é uma ilusão. Não só no trabalho, na vida toda, mas se formos filosofar sobre isso, prefiro que estejamos tomando um chá, vendo o por do sol.


Photo by Elena Koycheva on Unsplash


Mesmo assim, existem algumas precauções que se pode tomar para que o senso de estabilidade se mantenha mesmo quando não há garantias que um negócio vá dar certo. Cada um sabe quais são seus critérios de segurança e acho que eles dependem muito dos gastos fixos que já estão comprometidos, do tipo de apoio familiar e social que se tem, do tamanho da família que depende de você e dos planos para o futuro que impulsionam suas lutas.

Para mim, naquele momento em que eu disse "agora eu vou", decidi que meu senso de segurança seria ter o equivalente a quatro meses de contas fixas guardados no banco. Isso só foi possível por que eu levei minha empresa no paralelo de um emprego fixo por dois anos. O emprego pagava as contas e me dava um sobrinha e os trabalhos que eventualmente conseguia com minha empresa geravam então um saldo extra que eu procurava guardar o máximo possível.

Quando pedi demissão, tinha evidências de que se todo o esforço que eu tinha dedicado às seis empresas para as quais eu trabalhei até ali fossem aplicados com igual empolgação e disciplina em meu próprio negócio, não haveria por que não ter sucesso. Além disso, depois de trabalhar um bom tempo em diversos lados da cadeia de produção, notei que os lucros dos contratados eram bem maiores do que os do meu trabalho "garantido".

Mas houve algo que precisei abrir mão, o "status". Quando você abre seu próprio negócio ou decide se lançar como autônomo no mercado, você perde um tanto de prestigio que tinha por que carregava o nome de empresas muito maiores e mais renomadas que a sua. No princípio, o mercado passa a te ver como um pouco menos relevante, por que suas decisões dificilmente impactam outras empresas grandes.

Quando eu trabalhava produzindo para uma empresa de mídia multinacional, os freelancers estavam sempre em busca da minha aprovação. Depois, quando passei a comandar a parte de produção de uma agência de publicidade, as maiores produtoras do mercado queriam me mostrar seus portfólios. Agora, com minha nova empresa, que quase ninguém conhecia pelo nome, poucos realmente se importavam com o que eu achava ou deixava de achar.

É preciso olhar para si mesmo e responder com sinceridade, o que eu estou buscando em minha vida profissional? Se, naquele momento, a minha resposta tivesse sido "prestígio", eu jamais teria abandonado meu emprego para começar uma empresa que não significava muito para mais ninguém além de mim e dos meus sócios.

No entanto, para mim, a resposta era "independência", eu queria poder decidir qual era o melhor caminho a ser seguido em cada projeto ou momento da empresa, considerando meus valores e os meus sonhos. Apesar de ter crescido bastante em todas as empresas que trabalhei, existe sempre um limite de atuação que é, em última instância, o "dono" da empresa e muitas vezes "ele" tem outros planos para si que diferem consideravelmente dos que você tem para você e para as pessoas que lhe cercam. Foi nesse momento que eu decidi sair, todas as vezes.

Minha decisão não foi para nada repentina, apesar de achar que é bastante possível prosperar tomando uma atitude impulsiva que seja fruto de um sentimento sincero e amadurecido. Além disso, também não era uma decisão irrevogável, eu tinha como acordo comigo mesma que a independência que eu já tinha conquistado até ali, não poderia diminuir em busca do sonho de mais independência, não fazia sentido, então se minhas reservas baixassem para menos do que quatro meses de custos fixos em qualquer momento da trajetória, eu ia começar a buscar um novo emprego e andar algumas casinhas para trás no tabuleiro tranquilamente.

E então eu me joguei.

Todo o trabalho que tenho feito desde então é para formar uma marca que seja lembrada, para que as pessoas que se relacionam comigo saibam o que eu faço e contem comigo para seus projetos profissionais. Falei um pouco sobre como faço isso no meu texto sobre "Como encontrar clientes, afinal?".

Além disso, desde aquele dia que deixei meu último emprego até hoje, o negócio já ganhou diversas formas e acho que é isso que o mantém vivo no mundo e dentro de mim. A cada ano eu tento tomar um tempo para olhar para minha empresa e escutar o que ela me diz. Às vezes você acha que é uma empresa de uma coisa e, na verdade é uma empresa de outra, por mais insano que isso possa parecer. Se você olhar para seu portfólio, para suas relações de trabalho mais potentes, para o momento atual e para seus planos, vai entender qual é seu forte neste momento. E ele pode mudar a cada ano, acredite em mim. Se você tiver atento, seu negócio nunca vai parar de ser relevante.

No final de 2018, depois de ter passado por um ano difícil, durante a elaboração de um relatório para um cliente, tomei uma semana para dedicar-me dia e noite a pensar o que realmente minha empresa tinha de diferencial e qual era sua especialidade. Foi também um trabalho de retrospectiva da minha vida profissional até ali e do que eu tinha realizado em cada empresa que passei (sempre como PJ). O que entendi foi que desde que abri a minha empresa, ela sempre foi contratada como especialista em sua área dentro de outras empresas, para estruturar processos e consolidar áreas. Olhar a trajetória da empresa como um todo e não só do momento em que eu abandonei meu "emprego fixo", fez com que ela ganhasse um corpo enorme e forte que eu jamais tinha notado que ela tinha.

A verdade é que a empresa é uma pessoa (juridicamente comprovada) separada de mim em muitos aspectos, mesmo quando eu dependo dela e ela depende de mim para viver. Hoje vejo que todo meu trabalho para fazê-la ter sucesso é baseado em reconhecê-la pelo que realmente é com todas suas potencialidades. Afinal, sua certidão de nascimento tem uma data e, não por acaso, nesse mês ela faz dez anos. Em idade de empresa, é uma senhora empresa e cuidou de mim talvez até melhor do que eu cuidei dela, é preciso ouvir a voz da experiência.

Sim, eu comecei esse texto querendo falar de outra coisa, dos períodos de baixa e alta de trabalho, mas acho que pensar em ser autônomo ou empresário é sempre sobre abraçar as altas e as baixas. A alta é o objetivo, mas a baixa sempre é o momento em que minha empresa tem sua voz ouvida e leva-nos, eu e ela, para a próxima alta que também é sempre maior que a última. Nessa pandemia, confio, não deve ser diferente.

Se você também está preocupado, tome esse tempo que a existência está te dando para colocar tudo no papel, analisar, fazer novos desenhos, melhorar sua comunicação, pensar novas parcerias, ativar as velhas parcerias, ouvir o que sua empresa está pedindo para você fazer. Mesmo que seja enquanto procura um emprego para resolver o mais urgente. Minha experiência diz que essas empresas com alma, sabem exatamente para onde estão indo, basta a gente ver qual é o nosso papel nisso.

Em resumo, aproveitar a alta e a baixa do trabalho é saber que cada fase é uma oportunidade e não necessariamente são opostas. Você só pode organizar a casa, por que ela está vazia, se ela estivesse em festa, não faria sentido obcecar com deixar o chão limpo, entende?

Por fim, não sei se você conhece o Tao Te Ching, é um livro chinês escrito há mais de 2300 anos, traduz-se para O Livro do Caminho e da Virtude, e acho ótimo para quando a gente não sabe o que fazer. Não a toa ele inspirou toda uma religião, mas isso não vem ao caso. Tem uma parte que eu gosto muito e deixo aqui, com desejos que o próximo momento seja para todos nós de mais um sucesso.

O Ser e o Não-ser Surgem mutuamente; O fácil e o difícil Complementam-se; O longo e o curto Condizem; O alto e o baixo Apoiam-se; O som e o silêncio Possibilitam-se; O antes e o depois Seguem-se. Por isto: A pessoa honrada cumpre suas ações sem agir, Pratica o ensino sem falar, E todas as coisas agem sem serem impedidas. Ela cria e nada possui, Atua e nada guarda, Realizada a obra, ela não se apega. E justamente por não se apegar A obra não se esvai

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