Produzir para criação

Durante essa última década em que estive atuando como produtora e consultora, observei como outros produtores e áreas especializadas em viabilização de idéias audiovisuais dentro de empresas atuavam com seus parceiros criativos.

Uma das atitudes que sempre tive dificuldade de compreender é aquela do produtor que sempre diz "não". Apesar de, na maior parte das vezes, esse "não" ser passageiro e, com um pouco mais de luta, acabar virando "sim", muitos usam essa estratégia, suponho, para validar a necessidade do pedido que está sendo feito.

Essa atitude sempre reforça a idéia de que a criação cuida da parte criativa e a produção cuida da grana, que é, em parte, verdadeira, mas não comporta a complexidade das funções de cada área.

Se você leu alguns dos meus outros artigos ou conhece um pouco do meu trabalho, sabe que defendo a "produção criativa" como sendo a realmente eficaz para projetos audiovisuais. Se você quer entender mais sobre esse cargo, bastante conhecido nos EUA, mas pouco nomeado aqui no Brasil, leia também o Produção Criativa - o que é?.

Nesse sentido, o produtor seria, não só um responsável por negociar e pagar o que lhe pedem e o que mais ele achar necessário para a execução de um projeto, mas também seria uma das mentes criativas responsável por pensar soluções junto com o diretor ou o cliente. Apenas essa mudança de perspectiva já impediria qualquer produtor de responder a um pedido com "não", pois isso iria totalmente contra a sua função no projeto, que é de viabilizar.

O dono de uma grande produtora de filmes publicitários me disse, durante minha passagem por lá como líder de novos negócios, "nós não trabalhamos para o cliente, nem para agência, nós trabalhamos para o filme". Entendo que o que ele queria dizer é que a equipe devia focar em prestar um serviço excepcional, claro, mas que isso envolve lembrar-se que o cliente não vai avaliar somente um aspecto do projeto separadamente de outro. Se o orçamento era barato, mas o filme ficou horrível, de que adiantou todo o trabalho?

Parece óbvio falando assim, mas quando estamos no meio do caos da produção, podemos facilmente esquecer qual é o objetivo do conjunto, não é?

Noto que, cada vez, mais essa atenção torna-se primordial, já que as verbas flutuam loucamente, as necessidades de prazo mudam de uma hora para outra, o modelo de contratação do cliente torna-se mais participativo ou uma pandemia assola nosso moral.

Vamos por partes:

Se a verba é curta para a idéia proposta, ao invés de dizer "não dá", poderíamos tentar entender melhor o objetivo, o que é essencial da idéia e trabalhar em conjunto com o time criativo para encontrar soluções. Por exemplo, se sairmos dos atores e formos para pessoas reais, com casas reais, com histórias reais? A produção trabalha mais, mas gasta menos, porém o impacto da idéia pode ser maior no público.

Se o prazo de produção ficou apertado, quem sabe podemos descobrir algo incrível que alguém já produziu antes, ou até tornar tudo mais minimalista e elegante.

Se o cliente tem sua equipe de produção interna, por que não colaborar com ela para criar algo com mais mãos e mais cabeças, pensar em formas de facilitar o trabalho deles enquanto eles facilitam o seu?

E se uma pandemia chegar e todo mundo tiver que ficar em casa. Bom, daí, por favor, fique em casa, mas isso não te impede de observar que tipo de filmes se pode fazer dali ou que tipo de produções podem ser criadas dentro desse "novo normal".

Se você nunca ouviu falar do Dogma 95, eu te conto. Em 1995, dois cineastas dinamarqueses criaram regras para execução de filmes mais realistas e menos comerciais. A lista inclui coisas que NÃO se pode usar na elaboração do filme. Na escolas de cinema, usa-se algo semelhante ao Dogma para estimular a criatividade, acreditando que colocar limitações não deveria ir contra o trabalho criativo, mas sim a favor. Se não podemos fazer o que conhecemos, o que então podemos inventar?

Procure mais detalhes sobre o movimento do Dogma 95 na internet e pense como aquele roteiro que você estava criando ou orçando se transformaria se tivesse que seguir as regras.

Aproveito para fazer um parênteses instigador de que esses também são os critérios para filmes publicitários que tem mais engajamento pelo público, serem mais realistas e não parecerem descaradamente propaganda. Não a toa o Ticktock é um sucesso, não é?

Então, da próxima vez que, você produtor, receber uma demanda que não sabe se cabe no prazo ou na sua verba, ao invés de dizer simplesmente "não", diga "e se...", trabalhe com a criação, troque idéias. E os criativos, quando ouvirem "não", perguntem "então, o que você sugere?".

Nosso objetivo é sempre que o filme seja lindo, independente das limitações que temos. Vamos co-criar, vamos viabilizar, trabalhar em equipe é isso.








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